Faltam 3 anos pra minha morte!
Tenham paciência, um dia vocês conseguem ler tudo ok?
22 de abril 1994, uma noite chuvosa e fria, ouve-se gritos de alegria, e por momentos de preocupação. Parto normal, ou parto cesariana? Qual será o fim do meu bebê? Me sinto mal, dores, e meu marido está la fora com a mãos frias e anciosas para pegar nossa filha no colo.
O que há de acontecer? Será que ele já esta ciente que talvez eu ou ela não há de aguentar?. 22:00horas estou sendo encaminha para sala de parto cesariana, sinto um frio na barriga e parece que meu mundo está prestes a começar, e logo depois de alguns minutos eu ei de ouvir um belo choro espontâneo, era a minha menina, gordinha e chorona. Estava tão cansada e preocupada que não sabia se dormia, chorava, ou sorria. Depois de alguns minutos desmaiei e acordei no dia seguinte com meu marido fazendo ‘xixixi’ pra minha neném durmir.
E não é que ela durmiu mesmo?
Linda e chorona, adorava morder tudo que via, e seus primeiros dentinhos eram muito belos e como dizia o medico, muito fortes. O primeiro passo foi de arrepiar, achei que fosse cair, mais não caiu. A primeira palavra ‘mama`, chorei como uma criança ao ouvir ela dizer aquela meia palavra mais que ja dava de entender.
E aquele dia que ela subiu na bicicleta com aquelas rodinhas atrás e mesmo assim caiu e se ralou toda, meu deus, juro que fiquei desesperada, fiquei mais calma ao ver que ela estava rindo de si mesma.
Ficava preocupada no trabalho pensando se ela esta bem no colegio, se ninguem está mexendo com ela, ou se ela esta pegando na mão de alguem para atravessar a rua.
Morria de anciedade quando olhava no relogio e era 12hrs e logo estava chegando a hora de abraçar minha pitoca. Era tão inteligente que ao chegar do colegio ela nem almoçava, ia direto fazer suas lições e adorava embalar meu panos de louça e me dar de presente novamente. Gostava de deitar na cama comigo e me ver dormindo, comendo aquele iogurte congelado que não podia faltar depois do almoço. E quando ela cantou uma musica para mim no palco do colegio no dia das mães? Era até uma pena eu não estar la no momento, mais a minha memoria não falha e eu sei que ela arrazou. Os professores viviam falando bem dela e que ela era uma garota bem dedicada e que certamente iria se dar bem na vida.
Daria tudo para ver ela novamente com uma roupa coladinha tentando imitar as dançarinas do é o tchan. Daria tudo para ver ela novamente nenenzinha gritando ‘mama, mama, mama`.
Quer ver a correria de uma semana antes da formatura da 8* série, eita menina vaidosa que era dificil de achar um vestido do seu gosto, ficamos dias atras de alguma coisa que lhe agradace. Era muito orgulho olhar minha filha la no palco pegando seu diploma, com aquele vestido rosa, e todos olhando pra ela, admirando-a. Sempre tive orgulho dela, ainda mais quando iamos em alguma festa de familia e ela cantava aquelas musicas em Inglês, meio enrolado, mais como ninguém entendia mesmo era um sucesso. Adorava quando eu entrava no quarto e via ela sentada na cama tentando tocar violão. Era muito mais engraçado quando ela tentava cantar junto e dava tudo errado e o silêncio tomava conta do quarto dela.
Meu marido sempre dizia que a nossa filha ia ser um sucesso, paparazzis, flashs. Ele dizia que ela era rápida e inteligente, servia para advogada, juíza, e tudo que envolvia rapidez.
Ele sempre gostou de tocar violão e ouvir aquela voz fina de menina nova. E aqueles dias que ela acordava de mal humor? Nossa, era até muito engraçado ver ela se estressando com as proprias mãos. Até esqueci de contar da primeira menstruação dela, foi muito engraçado. Numa manhã insolarada de um verão quente, proximo das férias de Dezembro, eu pendurando roupas numa sexta feira de repente vem ela toda desesperada dizendo que foi fazer xixi e tinha manchas de sangue na calçinha, por dentro confesso que ri mesmo, mais ela estava quase chorando de emoção porque no fundo no fundo ela sabia que apartir daquele dia ela se tornaria uma grande mulher. Seu primeiro absorvente, a primeira tirada de sombrancelhas, a primeira vez que ela escolheu o próprio corte de cabelo, e o desespero de se ver no espelho depois? Onde esta meu cabelo?, era o que ela mais se interrogava.
Sua avô dava tanta confiança, as duas eram grudadas, tipo mãe2 pra ela.
A, não posso esquecer do dia que ela foi pra aula, e chegou em casa vermelha, mais com um sorriso de orelha a orelha. O seu primeiro beijo, ela teve a coragem de contar pra mim que quase vomitou mais adorou o garoto, e eu me desesperei ao ficar sabendo que era o vizinho que ela estava apaixonada. Logo me veio na cabeça, pré-adolescentes, meio fora das casinhas, droga, vou ter que ficar de olho. Aquela morena de cabelos longos, magrela de olhos pretos até que agradavam uns e outros, e os gaviões começaram a pousar em meu terreno em busca de carne nova, risos, isso era o que meu marido falava quando via que ela estava se arrumando toda vaidosa para ir em alguma festa com as amigas.
O mais engraçado era quando eu e ele chegavamos em casa e a casa toda arrumada e cherosa, aposto que era toda sexta feira da semana e quando isso acontecia podemos ter certeza que sábado tinha alguma festa para ir e aposto que la estava o amado dela.
Seu primeiro namorado, as primeiras grandes brigas e proibições, retiradas de celular. O boletim sempre foi ótimo, no colegio nunca me preocupei.
Pensa numa adolescente brava e tristonha durante uns tres meses quando tivemos que nos mudar para Brusque em 2008 quando ela tinha 14 aninhos.
Confesso que foi uma época triste, mais eu sentia que a cada dia que passava ela se transformava numa pessoa bem mais forte, até o seu primeiro namoradinho acabar com o namoro, sim, ela deu uma recaída, mais dois dias depois ja estava empolgada para ir numa festinha que la iria reencontrar seus amigos de Blumenau novamente. Se arrumou tanto, se maquiou umas vinte vezes e se olhava no espelho com olhar de insatisfeita com a nova maquiagem. Aquele vestido colado amarelo que se destacava com a pele morena, ficou linda, mais ao dar um passo com aquele salto gigante se mostrava bem segura mais muito desajeitada quando tinha que se mover de um lado para o outro, era até muito engraçado.
Naquela festa conheceu um outro garoto, aquele sim foi seu namorado de verdade, o primeiro a tocar realmente os sentimentos dela. Ela era super segura nas suas decisões, e de um dia para o outro decidiu começar a namorar e a trabalhar e assim ela se tornou uma pessoa responsável.
Os dois eram super lindos juntos, todo sábado ela ia com ele para Blumenau, porque ele era de lá, e o meu coração se apertava quando recebia uma mensagem dela dizendo que iria durmir lá. E a minha preocupação quando eles saiam de noite para a balada, essas ruas perigosas me deixavam sem sono.
Aquela menina linda, o meu orgulho.
Isso tudo foi o que a minha mãe pensou quando o telefone tocou um dia antes do meu aniversario em 2013 as 2horas da manhã. Era o hospital pedindo para eles comparececem la pois eu havia sofrido um acidente de carro com meu namorado e o caso era gravíssimo.
Foram os quatro, meu pai, meu irmão, minha mãe e minha cunhada, meu pai nunca andou tão rápido de carro quanto naquele dia, mais na verdade não iria mudar muita coisa, eu ja estava morta mesmo!
Chegando no hospital, minha mãe com a voz rouca de chorar pergunta para os médicos o que havia acontecido, e o silêncio tomou conta do hospital, minha mãe tentando fugir do pensamento que a perseguia, meu pai culpando Deus por ter me levado, meu irmão chorando desesperado pedindo para me trazerem de volta, e minha cunhada chorando sem saber o que falar ou como agir. Certamente alguém teria que comprar a minha caixolinha não é? Pois é, quem ficou responsável por isso foi o meu tio pois mais ninguém na familia teria forças pra escolher um lugar onde os insetos nojentos iriam se alimentar da minha carne em decomposição. Quando meu corpo frio e morto chegou naquele local tristonho as pessoas começaram a chorar mais fortemente, e o silêncio começou a ficar muito mais profundo. A minha morte virou notícia na cidade, tinha gente tirando fotos do meu corpo naquele caixão de madeira que por um lado até parecia ser confortavél. Minha mãe chorava tanto, tanto, tanto que tiveram que acalma-la com capsulas de calmante. Meu pai até que por um lado ficou mais tranquilo, era o que eu esperava, ele sempre foi forte, até eu descobrir que ele estava chorando no banheiro da capela mortuária. Meu irmão colocava as mãos sobre as minhas mãos que na verdade deixaram de ser minhas, pedindo perdão pelas nossas brigas e ele gritava me chamando de volta. Estou esquecendo do meu namorado que já não é mais meu, estava sentado em sua cadeira de rodas no canto da capela chorando como uma criança, mais ele não tinha coragem de chegar perto de mim que ja não é mais mim.
A unica pessoa que estava ao lado dele era minha avó linda e querida que não estava acreditando que vieram me buscar antes dela. Juro que minha morte foi inventada umas 20 vezes por pessoas diferentes, naquela manhã do dia 22 de abril, meu aniversario de 19 anos, eu havia morrido de umas 20 doenças pela boca do povo, até de aids eu morri.
Pois é, aquela madrugada de um dia antes do meu aniversário foi bem assustadora, meu namorado que ja deixou de ser meu, ficou desesperado e se culpou pro resto da vida pela minha morte. No meu enterro naquele cemitério que até era bem florido. Foi a ultima despedida e a ultima vez que todos iriam me ver inteira, inteira na verdade não, estava faltando meu orgãos que foram doados e minha alma logicamente.
As pessoas eram tão curiosas que tentavam chegar perto do meu caixão para ver se eu estava bonitinha ou não. Risos, até que eu estava bonitinha e por um lado bem inteira por ser um acidente de carro. Minhas mãos raladas, e minha cabeça basicamente ralada também, mais a pancada foi tão forte que tirou toda minha grande consciência e principalmente a minha vida. Meu namorado ficou horas dizendo ‘eu sempre disse pra ela usar o cinto de segurança, ela sempre foi teimosa, meu deus, preciso voltar no tempo, porque ela? porque não eu?.
Sei la se ele ainda não tinha caído na real que eu morri, mais ele tava um pouco tranquilo, mais logo eu tinha descoberto que ele tava entupido de calmantes. Acho que todos estavam entupidos de calmantes.
Minha amigas chegaram só para o meu enterro mesmo, lembro que elas sempre tinham medo de velórios, como se eu fosse perder meu tempo assombrando-as.
As vizinhanças que foram visitar meu corpo que ja não era mais meu, olhavam uns para os outros e ficavam fofocando e tentando advinhar porque eu morri, fofocas mais importunas.
Uns diziam que eu era linda demais e nova demais para morrer, outros diziam que eu havia começado a faculdade de direito e que ja tinha realizado meu sonho, outros não acreditavam que eu havia morrido mesmo. As pessoas enxiam o saco dos meus pais que estavam perdidos, as pessoas realmente não tiveram piedade, iam la e perguntavam doque eu havia morrido e outros perguntavam se estava tudo bem. Como estaria tudo bem se eu que ja não era mais eu, estava ali, deitada, fria, de olhos fechados eternamente, esperando me colocarem em um buraco fedido e sujo, junto com varias pessoas que já deixaram de ser elas mesmas, esperando começar a entrar em decomposição, sinceramente seria bem estranho ver aqueles 19 anos de vida e de experiência sendo devorados por insetos nojentos e por minhocas gosmentas.
E dai?, ja não havia mais nada, nada mesmo.
posso te dizer que morri lendo isso? :|
ResponderExcluirai bobinha, nem é tão ruim!
ResponderExcluir♥